Resenha do Filme O Paí Ó

Gênero: Comédia
Duração: 98 min
Origem: Brasil
Estréia – Brasil: 30 de Março de 2007
Direção e Roteiro: Monique Gardenberg
Produção: Augusto Casé, Paula Lavigne, Sara Silveira
Globo Filmes

“O Paí ó é uma gíria baiana que significa: ”Olha para isso, olha”. Antes peça de teatro e agora filme, o título dado é muito pertinente à história narrada e aos fatos destacados.
O foco é um grupo de moradores de um cortiço na véspera do último dia de carnaval. Entre esses moradores estão Rock, interpretado pelo brilhante Lázaro Ramos, na pele de um poeta que ganha a vida como pintor; Reginaldo seu amigo, e sua esposa que está grávida; Baiana, que vende acarajé na ladeira do Pelourinho; A mãe de santo e seu filho que faz parte de uma banda; Carmem, uma enfermeira que faz abortos clandestinos e possui um pequeno orfanato dentro de casa e Pyscilene, sua irmã que chega da Europa no mesmo dia.
Fazem parte da trama, mas não moram no cortiço, a personagem de nome Neusão e sua sobrinha recém chegada do Juazeiro, Rosa; Boca que é um traficante das redondezas; seu Gerônimo que possui um comércio e vive pedindo a proteção de um guarda que lhe deve dinheiro.
Dona Joana também é moradora e dona do cortiço. Segundo ela, o marido que viajou e não aparece no filme, construiu o prédio sozinho. Ela tem dois filhos chamados Cosme e Damião, ela procura criá-los de forma rígida, mas os garotos tapeiam a mãe o tempo inteiro dizendo que estão indo à igreja quando na verdade estão indo para as ruas. Dona Joana é evangélica e abomina o carnaval, por isso, bem no último dia de feriado fecha o registro de água. O filme narra este dia em que dona Joana fecha a água e os moradores além de seguirem sua vida, fazem de tudo que ela abra o registro novamente.
O filme que foi bem patrocinado e que provavelmente deve ter tido um alto gasto de recursos, conta com a presença de vários artistas e grupos musicais baianos famosos, como Araketu, Daniela Mercury, Margareth Menezes, além de contar com Caetano Veloso como produtor musical. Retrata muito bem o que é a Bahia e a cultura do seu povo. Os aspectos mais presentes no cenário baiano como a pobreza, a alegria carnavalesca e o sincretismo religioso são muito bem destacados. Os cenários, vestimentas e maquiagem merecem atenção especial. A trilha sonora encaixa-se perfeitamente à história transformando-o quase em um musical. Porém, mais do que destacar a cultura baiana o filme abre os nossos olhos o preconceito racial velado que existe no País, e também é um protesto contra o processo de reestruturação da arquitetura do pelourinho, promovido por Antônio Carlos Magalhães que expulsou os moradores para restaurá-lo, como diz a resenha do site oficial: “O filme faz uma rasura na superfície de uma reordenação urbanística do Pelourinho que violentou territorialidades negras em tentativas vãs de embranquecimento cultural e de desafricanização dos espaços públicos de Salvador”
O Paí Ó é um filme genuinamente brasileiro, não somente por ter sido produzido aqui, mas por mostrar a realidade. Ouvi muitos comentários de que esse filme poderia “sujar” a imagem do Brasil no exterior de que “inglês não iria querer ver essa porcaria” e outros nessa direção. Penso que esses comentários são infelizes, muitos são brasileiros, vivem aqui e morrem de vergonha de uma parte da cultura do país, preferem seja transmitida a imagem de um Brasil que não existe, ou ainda uma cultura que por algum motivo considerem superior a cultura do nordeste. Penso que tudo é cultura brasileira, seja no sul seja no norte/nordeste. Além do mais, não concordo que a pobreza brasileira deve ser algo velado aos países de primeiro mundo, pelo contrário ela tem de ser mostrada a quem tem parcela de culpa na situação.
O sincretismo religioso é algo marcante no filme, porém, como todo material produzido pela Globo, seja filme, seja novela, o cristianismo, em especial o protestantismo é sempre mostrado de forma pejorativa e distorcida da realidade, principalmente da realidade das igrejas protestantes históricas. Aqueles que buscam um relacionamento com Deus, são sempre esteriotipados de forma fanática, bitolada, como se fossem extraterrestres, em sua maneira de vestir,  falar e em seu comportamento. Como se não bastasse, são ainda caracterizados como hipócritas pois escondem um lado (geralmente sexual) reprimido pela religião, caracterizando quase uma dupla personalidade no personagem. Que eu me lembre nunca vi um material que mostrasse o outro lado do cristianismo histórico, onde um cristão pode ser fiel e amar a Deus e ser inteligente e questionador. Não discordo que em determinadas igrejas seus pastores manipulam os fieis, mas alguns, diria que a maioria que não conhecem sequer uma página do cristianismo histórico, também se deixam manipular por meios de comunicação, que investem pesado em ideologias como essa.
No filme Deus também é freqüentemente culpado pela pobreza e problemas baianos. Há inclusive uma personagem que se sente responsável por consertar as “besteiras” que Deus faz de lá de cima, não é de se espantar que em um lugar como a Bahia, onde apesar do sincretismo, não há referencial de fé seguro. Até a própria Dona Joana, evangélica, ativa praticante em sua igreja, recorre no final do filme aos orixás da vizinha. Relacionamento com Deus não pode ser confundido com religiosidade, é muito diferente relacionar-se com um Deus pessoal e apenas praticar uma religião. Penso que talvez na Bahia há muita religiosidade, mas pouco envolvimento com Deus.
No final, o filme mostra perfeitamente a realidade do carnaval baiano. Enquanto uns pulam na folia, outros morrem, enquanto uns riem, outros choram, enquanto uns transam sem nenhum compromisso, outros assumem as conseqüências desses erros, enquanto uns bebem, pulam e se drogam numa noite de fantasia, outros se deparam com uma triste realidade. Talvez essa cena final seja a mais chocante de todas, principalmente pela trilha sonora composta pelo Olodum como forma de protesto, a música e as cenas bem colocadas fazem com que o final do filme seja emocionante.

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7 comentários on “Resenha do Filme O Paí Ó”

  1. heitor diz:

    Oi, net-amor, foi um prazer imenso ter assistido este filme ao seu lado. Rimos muito em quase todas as cenas, é realmente uma comédia brilhante. Lendo seu texto, percebo que você procurou fugir dos estereótipos frequentes com os quais “tenta-se” enquadrar os baianos ou nordestinos em geral, isso é louvável, entretanto uma afirmação sua ao final do texto, é provocativa. Lê-se o seguinte em um dos parágrafos finais: “Na bahia há muita religiosidade, mas pouco envolvimento com Deus”. Penso que um outro texto seu poderia ser postado, comentando o que seria exatamente um relacionamento com Deus desligado de uma religiosidade com a feição “baiana”. De resto, deixo algumas questões para pensarmos juntos: de que forma se pode distinguir e/ou identificar envolvimento e relacionamento? O sincretismo tipicamente “baiano” não é também, em diferentes proporções o sincretismo do resto da cultura religiosa brasileira, que mistura elementos oruindos da europa, áfrica, indígenas e outros?
    No episódio 19 da série Heroes, Nathan Petrelli afirma a seu irmão que “a maior parte do que nós somos é por causa do que as pessoas esperam que nós sejamos, se você afastá-los nada faz sentido”, guardo esta frase comigo e tenho pensado sobre ela, de alguma forma mostra o quanto somos seres determinados por nossa sociabilidade. Penso que ela se relaciona com o exposto no seu texto e também no filme “Ò pai ó”, talvez possamos afastar alguém que espera algo de nós que não estamos dispostos a oferecer, da mesma forma, o afastamento de Deus só pode ser obra da nossa consciência, nalgum momento aquilo que fazemos aparece para nossa consciência como um afastamento, um distanciamento, e, a partir de então, a menor parte do que nós somos (aquela que não é determinada pelo que esperam de nós) tenta restabelecer esses vínculos quebrados. Penso na religião como uma tentativa de restabelecer esses vínculos, e na religiosidade como a expressão histórico-social dessa tentativa.
    Não esqueça de agradecer ao Pr. Misael pelo episódio 19, fale para ele que aguardo a resenha do seriado, para ler, aprender e, quem sabe, comentar.

  2. Patricia diz:

    achei essencial e muito bem colocado esta sua resenha, retratou bem a forma da esteriotipação dos baianos e da religião.
    muito obrigada e saiba que será citado este comentário muito interessante e real em meu trabalho

  3. muitoo bom esse filme adoreii ele e muito resenha 🙂

  4. isad diz:

    o filme e otimo e engraçado de maissssssssssssss

  5. ligoto diz:

    gosto do filme e concordo com a maioria das teses que você defende na sua resenha crítica… porém discordo no que diz respeito a frase:”Penso que talvez na Bahia há muita religiosidade, mas pouco envolvimento com Deus.” Quem sou eu para discutir com uma teóloga, mas no meu ponto de vista se uma determinada pessoa é religiosa e pratica a fé no nosso Senhor Deus, ela se relaciona com ele. Logo, na Bahia, há muito a prática da religiosidade e também do relacionamento com Deus.

    • Quando eu disse, Ligoto, disse de maneira geral. A Bahia é conhecida por sua religiosidade, geralmente uma mistura de catolicismo com candomblé. Mas com certeza existem por lá pessoas que cultivam um relacionamento com Deus baseado na Bíblia, que é a sua Palavra. 😉

  6. Mariana diz:

    Que escrita bela. Você conseguiu sistematizar o filme de forma nobre. Contudo não posso concordar com todo o texto. Como teóloga sabe que a Bíblia é um texto escrito por homens e que há erros. A palavra de Deus “um ser superior” está em todas as religiões se assim posso dizer TODAS. Na Bahia mais precisamente no recôncavo baiano por necessidades de sobrevivência da cultural os negros escravizados utilizaram o sincretismo como forma de proteger os seus orixás. Existe uma tentativa de se acabar com essa relação, entre a Igreja Católica e o Candomblé ( a saber: é uma religião genuinamente brasileira) mais ficou muito forte na cultura baiana. Por isso quem está de fora acredita ser uma bagunça, mais não é.


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