Velho, Triste e Bonito

Esse texto é um pouco “velho”,  já faz algum tempo que o escrevi, mas achei interessante iniciar as novas postagens com ele. É triste mas é bonito.

No Canto do Desencanto Encontramos o Encanto

Tem dias que a gente acorda assim, por mais que não saibamos o motivo (mas ele existe), paira em nosso coração aquela in(certeza) de que as coisas não serão exatamente como parecem ser. É como se pintássemos uma parede de branco e ficasse sempre aquela manchinha minúscula incomodando, ou como aquele quadro que por mais que ajeitemos daqui e ali está sempre torto.
Então a gente pára pra pensar na vida, em tudo que viveu até aqui, e no quanto é horrível analisar o passado sem estar dentro dele pra de alguma forma tentar mudar a vida, o destino, as pessoas… E percebemos que como um mostro feroz ela (a vida) nos enrrolou e nos atirou em um lugar, um canto.
Um café, um filme, uma conversa, nada tira de nós, essa angustia, esse peso, essa aberração melancólica que toma conta, invade sem bater, sem pedir licença.
Causa medo, causa febre, causa espanto, causa a dor e o desejo de ficar no canto. Querendo ou não ele é a fonte do encanto, mesmo que seja pra curtir o nosso desencanto.
É nele que nos encontramos com a ilusão dos sonhos e com o gosto amargo da realidade, onde as palavras tem dois pesos, duas medidas, onde a voz antes harmônica é ouvida com confusão e desespero.
As lembranças vem em rápidos flashs todos misturados, procurando a razão de estarem ali, sem encontrar, e nessa hora desejamos morte, ou ser pelo menos como aquele bilhete que guardamos não sei onde, ou como aquela água que várias vezes foi compartilhada no mesmo copo, mas não engolida e sim esparramada, pois na verdade não estamos muito diferentes, estamos esparramados, sem esperança nenhuma de que nos juntem novamente em um recipiente decente, pois o último era de vidro e se quebrou.
Mas nem tudo são dores, o canto mesmo num momento de desencanto é encanto, o encanto das ilusões perdidas, do alívio mesmo temporário e enganador dos nossos anseios. Nossos olhos ficam vermelhos, nossa pele fica pálida, o sono toma conta das nossas pálpebras, nossa temperatura sobe, as pessoas se desesperam, achando que vamos morrer mas lá no fundinho estamos arrancamos um cheiro, um sorriso, uma sensação inexplicável, leve, mas segura, firme, o vento nos nossos cabelos, pelo menos por aquele momento.
O canto mostra quem realmente somos, figuras fracas querendo ser fortes, que não conseguem explicar o que sentem, que são assim diferentes, talvez por não ser maduros, e “enfrentar tudo de cabeça erguida”, talvez por chorar, sangrar, fazer sangria, talvez
por não escrever belos textos, gostar de literatura, ou simplesmente por não falar mil línguas, ou viajar o mundo em um navio. Por não desfilar graça, beleza, simpatia. Por não ser aquilo que se espera, pois não gostamos de esperar, desesperar combina mais com nosso mundo, com a nossa história. Somos condenáveis, por querer calar, por não saber explicar, porque querer ficar aqui no canto, no nosso canto, que é tão bom e ao mesmo tempo tão ruim, onde tentamos desesperadamente remover a mancha, acertar o quadro, juntar a água, que a essa altura já evaporou, e colocar em um recipiente.
E por mais que digam que a tempestade vai passar, ou que o “curandeiro tempo” vai tudo resolver, a melhor coisa a fazer é esperar, mas sem tentar explicar, sem falar, sem compartilhar, pois nos momentos de maiores angústias, não dá pra contar com a ajuda in(explicável) humana.
Sentar, chorar e aguardar, mas sempre aqui no canto.

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2 comentários on “Velho, Triste e Bonito”

  1. Na verdade essa é a tristeza repentina, um sentimento não existe em qualquer pessoa. Na verdade eu acho melhor essa tristeza, mesmo quando não passa e mesmo quando a gente não sabe de onde vem, porque o vazio dói mais. O vazio arde mais. Porque quando a gente dor, a gente sabe que está vivo. Quando a gente não sente nada, é pior, porque a gente não sabe se está vivo, e nem entende porque as coisas acontecem. É uma coisa meio “socorro eu não estou sentindo nada”
    A melancolia tbm. ajuda, não sei, mas nos faz mais profundos.

    Bjos, eu amei o texto, vc. realmente é ótima.

  2. Flávio diz:

    Conheço um pouco deste canto também… E o ‘encanto’ se é que posso assim chama-lo que encontro neste canto muitas vezes é sair fora de mim mesmo, por assim dizer, e perscrutar com os olhos da fé a eternidade diante de mim. É saber com convicção que esta presente vida se assemelha mais a um sonho diante da realidade da proxima, que me aguarda. Que Ele enxugará todas as minhas lagrimas para sempre! Que vou viver, viver, viver… verdadeiramente. Porém enquanto não, o canto insiste comigo, que eu seja paciente, confiante, pois um dia me livrarei dele para sempre… Não que seja um desprezo da presente vida, não que seja ingrato a Ele por esta presente existencia, mas porque sei que somente Ele me completará. Sou grato por todas Suas benesses, sou carente delas, mas sou muito mais dEle mesmo, o qual é a Fonte e a Origem de tudo quanto existe. Tanto das minhas necessidades quanto dos suprimentos das mesmas. Tanto aquelas como estes suprimentos Ele Ordenou, pois se deleita em me fazer feliz. Aos poucos Ele foi me ensinando que o ‘canto’ desta vida serve tão somente para me conduzir a Ele, para me fazer olhar para Ele, para me encantar por Ele, que é a Fonte e a Origem de tudo quanto existe. Diante do Eterno zombo do canto… passageiro.

    Beijo. 😉


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