Uma Carta Para Calvino

bolo_calvinoPublico essa carta por ocasião dos 500 anos de Calvino (10/07/1509). Ela foi escrita para cumpir as exigências da disciplina Filosofia da Educação, quando fiz o curso de pedagogia. 

 

Gama, 02 de setembro de 2006

Querido Calvino,

Ao deparar-me com a tarefa de escrever uma carta, achei que seria interessante escrevê-la à você, por toda a sua contribuição no que diz respeito a uma filosofia educacional e pelo trabalho brilhante da Academia de Genebra.

Hoje as coisas estão muito diferentes, e a nível de Brasil a educação anda mal das pernas.

Cada vez mais educadores e pesquisadores trabalham arduamente em metodologias novas e em tentativas de atualização do ensino brasileiro, porém, a grande verdade é que a educação passa por uma crise gerada pelo descaso, falta de investimento e também por uma filosofia de educação recebida equivocadamente.

Abraçamos um modelo interessante em alguns aspectos, mas que foi praticamente “jogado” sem nenhum direcionamento. O modelo prega que o conhecimento é algo que vai sendo gradativamente formado e que cresce de forma subjetiva e individual, mas da maneira como vem sendo implementado há uma omissão de direcionamento, e “o resultado não é conhecimento construído e sim, caos educativo”. No final, somos reconhecidos como um país cheio de inovações  e sem nenhuma relevância significativa. 

Acho que precisamos de uma nova reforma educacional. Pego-me pensando em suas reações quando se deparou com a filosofia educacional  tomista existente em Genebra, onde a educação acontecia de acordo com os interesses da igreja e preparava os homens para corte ou para o clero.

Admiro o seu esforço para mudar todo um sistema, o seu pensamento de que TODOS, e não apenas alguns, deveriam ter direito a educação para que fossem cidadãos úteis a sociedade, para que saíssem da profunda ignorância e da miséria moral, intelectual e espiritual que se encontravam. Você acreditava que a solução era educar, por isso, apresentando um projeto ao conselho municipal transformou o Collège Versonnex, única escola que havia em Genebra em várias escolas para crianças de todas as idades, que ofereciam ensino gratuito e de qualidade a todos. A sua idéia de escola pública, oferecida pelo estado perpetuou-se até hoje. Porém querido, o ensino nem se compara àquele que você idealizou. 

Para começo de conversa, o estado não está muito preocupado com a educação, a mentalidade ainda é a mesma da pré-reforma, quanto mais ignorante o povo for, menos haverá questionamentos. O resultado disso é uma crise moral e ética que assombrou o país politicamente. O sistema adotado encontra algumas dificuldades em manter coerência filosófica nas premissas que foram adotadas. Por um lado levantam-se a bandeira do relativismo moral e a inexistência de valores absolutos, mas por outro, grande parte ao deparar-se com a realidade catastrófica do país e até mesmo das salas de aula, admite a realidade de valores morais universais. De certa forma isso favorece o estado, pois há um investimento educacional, mas as pessoas ainda continuam confusas e sem a educação adequada para o pensar, o questionar, e o participar ativamente da sociedade.

E a igreja, que você via como instituição importante nesse processo educacional, encontra-se em uma situação triste também. No que diz respeito ao cristianismo, a Igreja católica continua com práticas que favorecem o estado, e não encontram embasamento nenhum nas Escrituras, e algumas Igrejas protestantes (a maioria delas) caíram em práticas muito semelhantes as da igreja católica, e estão focadas mais em interesses próprios, traduzidos pela comercialização da fé dos fiéis que se deixam enganar, mesmo tendo acesso a tantas informações e aos textos sagrados. O resultado é a alienação crescente, que precisa de uma nova reforma, também religiosa. 

Nos faz falta cidadãos com o mesmo padrão de educação genebrino, que no verão começavam a estudar as seis da manhã e no inverno a sete e continuavam até às quatro da tarde, que já nos primeiros anos passavam do alfabeto a leitura fluente do francês, sendo iniciados na língua latina e grega. Como era importante sua preocupação com o aprendizado de línguas! Aqui no Brasil encontramos muitas dificuldades, pois a articulação correta da nossa própria língua é deficiente. Pesquisas recentes mostram que nossos alunos não sabem escrever e muito menos falar de forma satisfatória a nossa língua, o português. O conhecimento de outras línguas, então é privilégio de poucos.

As aulas de retórica e dialética, bem como o conhecimento das artes e das ciências (matemática, astronomia, física), relacionado às leituras dos pensadores como Cícero, Aristóteles, Sêneca e outros nos fazem falta. As mesmas pesquisas que mostram que os alunos brasileiros não sabem escrever, também mostram que eles não sabem ler, pois não conseguem interpretar o que estão lendo. É mais fácil prender a atenção deles com algo inútil que está sendo apresentado na TV do que com um livro. Hoje, eles freqüentam a escola por obrigação dos pais, que também estão mais interessados que o filho tenha uma carreira promissora do que no conhecimento que ele está adquirindo.

Pensadores, línguas e retórica são coisas das Universidades. Mas quem dera, se elas fossem semelhantes à academia que você, mesmo com todas as suas doenças arrecadou pessoalmente recursos para construir.

Elas (as academias brasileiras) possuem bons mestres, mas ainda é acessível apenas a minoria, e dessa minoria que se encontra lá, a maioria, fruto desse sistema que vem se desenvolvendo está interessada apenas no diploma. A leitura de alguns pensadores é vista como enfadonha e sem utilidade, e ainda há os que se gabam dizendo: “Depois que sai da faculdade, nunca mais li um livro!” comemorando a “estupidez humana e o descaso por educação”,como diz um protesto musical. Temos uma alta tecnologia, muitas informações disponíveis, mas isso pouco é usado de forma relevante, educacionalmente.

A escola brasileira poderia trabalhar melhor esses aspectos pontuados, se houvesse uma proposta clara, prática e objetiva de educação, e que essa proposta estivesse no coração dos nossos governantes. 

O povo poderia também aproveitar a oportunidade de acesso à informações e construir um pensamento indomado que fosse transformador socialmente. Porém diante do ciclo que vivemos, acho que fica mais fácil para o povo ser domesticado achando que está trilhando por uma educação onde ele próprio “constrói” seu conhecimento; e mais fácil para o estado que engana quando diz que oferece ao povo a oportunidade de adquirir esse conhecimento. No final de tudo, o cidadão educado pelo estado sobe aos palanques e continua o processo.

IMG_0006Vejo poucas alternativas para a escola brasileira hoje, querido. Principalmente, porque a idéia romanceada de que é o professor quem vai mudar essa realidade é muito difundida por aqui, como parte do sistema. Porém sua luta, seu esforço e seu trabalho, refletido na Genebra de hoje, estimula-me muito a influenciar de forma positiva os cidadãos que hoje tenho a oportunidade de educar. Quem sabe, a partir disso, uma reforma não aconteça também para a educação brasileira. 

Grata por sua colaboração educacional, política e religiosa, despeço-me, guardando no coração a profunda admiração que tenho por sua pessoa.

Ivonete Silva, ainda triste por não ter nascido a 497 anos atrás.

 Serviram de material de pesquisa para escrever a carta os seguintes escritos:

CAMPOS, Heber Carlos. A Filosofia Educacional de Calvino e a Fundação da Academia de Genebra, Fides Reformata 5/1, São Paulo: Editora Mackenzie, 2000. 

MCGRATH, Alister E. A Vida de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

NETO, Solano Portela. O Que Estão Ensinando aos Nossos Filhos? Uma Avaliação Teológica Preliminar de Jean Piaget e do Construtivismo, Fides Reformata 1/1, São Paulo: Editora Mackenzie, 1996.

WALLACE, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma: Um estudo sobre Calvino como um reformador social, clérigo, pastor e teólogo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

blico essa carta por ocasião dos 500 anos de Calvino (10/07/1509). Ela foi escrita para cumpir as exigências da disciplina Filosofia da Educação, quando fiz o curso de pedagogia. 
Serviram de material de pesquisa para escrever a carta os seguintes escritos:
CAMPOS, Heber Carlos. A Filosofia Educacional de Calvino e a Fundação da Academia de Genebra, Fides Reformata 5/1, São Paulo: Editora Mackenzie, 2000. 
MCGRATH, Alister E. A Vida de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
NETO, Solano Portela. O Que Estão Ensinando aos Nossos Filhos? Uma Avaliação Teológica Preliminar de Jean Piaget e do Construtivismo, Fides Reformata 1/1, São Paulo: Editora Mackenzie, 1996.
WALLACE, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma: Um estudo sobre Calvino como um reformador social, clérigo, pastor e teólogo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
Gama, 02 de setembro de 2006
Querido Calvino,
Ao deparar-me com a tarefa de escrever uma carta, achei que seria interessante escrevê-la à você, por toda a sua contribuição no que diz respeito a uma filosofia educacional e pelo trabalho brilhante da Academia de Genebra.
Hoje as coisas estão muito diferentes, e a nível de Brasil a educação anda mal das pernas.
Cada vez mais educadores e pesquisadores trabalham arduamente em metodologias novas e em tentativas de atualização do ensino brasileiro, porém, a grande verdade é que a educação passa por uma crise gerada pelo descaso, falta de investimento e também por uma filosofia de educação recebida equivocadamente.
Abraçamos um modelo interessante em alguns aspectos, mas que foi praticamente “jogado” sem nenhum direcionamento. O modelo prega que o conhecimento é algo que vai sendo gradativamente formado e que cresce de forma subjetiva e individual, mas da maneira como vem sendo implementado há uma omissão de direcionamento, e “o resultado não é conhecimento construído e sim, caos educativo”. No final, somos reconhecidos como um país cheio de inovações  e sem nenhuma relevância significativa. 
Acho que precisamos de uma nova reforma educacional. Pego-me pensando em suas reações quando se deparou com a filosofia educacional  tomista existente em Genebra, onde a educação acontecia de acordo com os interesses da igreja e preparava os homens para corte ou para o clero.
Admiro o seu esforço para mudar todo um sistema, o seu pensamento de que TODOS, e não apenas alguns, deveriam ter direito a educação para que fossem cidadãos úteis a sociedade, para que saíssem da profunda ignorância e da miséria moral, intelectual e espiritual que se encontravam. Você acreditava que a solução era educar, por isso, apresentando um projeto ao conselho municipal transformou o Collège Versonnex, única escola que havia em Genebra em várias escolas para crianças de todas as idades, que ofereciam ensino gratuito e de qualidade a todos. A sua idéia de escola pública, oferecida pelo estado perpetuou-se até hoje. Porém querido, o ensino nem se compara àquele que você idealizou. 
Para começo de conversa, o estado não está muito preocupado com a educação, a mentalidade ainda é a mesma da pré-reforma, quanto mais ignorante o povo for, menos haverá questionamentos. O resultado disso é uma crise moral e ética que assombrou o país politicamente. O sistema adotado encontra algumas dificuldades em manter coerência filosófica nas premissas que foram adotadas. Por um lado levantam-se a bandeira do relativismo moral e a inexistência de valores absolutos, mas por outro, grande parte ao deparar-se com a realidade catastrófica do país e até mesmo das salas de aula, admite a realidade de valores morais universais. De certa forma isso favorece o estado, pois há um investimento educacional, mas as pessoas ainda continuam confusas e sem a educação adequada para o pensar, o questionar, e o participar ativamente da sociedade.
E a igreja, que você via como instituição importante nesse processo educacional, encontra-se em uma situação triste também. No que diz respeito ao cristianismo, a Igreja católica continua com práticas que favorecem o estado, e não encontram embasamento nenhum nas Escrituras, e algumas Igrejas protestantes (a maioria delas) caíram em práticas muito semelhantes as da igreja católica, e estão focadas mais em interesses próprios, traduzidos pela comercialização da fé dos fiéis que se deixam enganar, mesmo tendo acesso a tantas informações e aos textos sagrados. O resultado é a alienação crescente, que precisa de uma nova reforma, também religiosa. 
Nos faz falta cidadãos com o mesmo padrão de educação genebrino, que no verão começavam a estudar as seis da manhã e no inverno a sete e continuavam até às quatro da tarde, que já nos primeiros anos passavam do alfabeto a leitura fluente do francês, sendo iniciados na língua latina e grega. Como era importante sua preocupação com o aprendizado de línguas! Aqui no Brasil encontramos muitas dificuldades, pois a articulação correta da nossa própria língua é deficiente. Pesquisas recentes mostram que nossos alunos não sabem escrever e muito menos falar de forma satisfatória a nossa língua, o português. O conhecimento de outras línguas, então é privilégio de poucos.
As aulas de retórica e dialética, bem como o conhecimento das artes e das ciências (matemática, astronomia, física), relacionado às leituras dos pensadores como Cícero, Aristóteles, Sêneca e outros nos fazem falta. As mesmas pesquisas que mostram que os alunos brasileiros não sabem escrever, também mostram que eles não sabem ler, pois não conseguem interpretar o que estão lendo. É mais fácil prender a atenção deles com algo inútil que está sendo apresentado na TV do que com um livro. Hoje, eles freqüentam a escola por obrigação dos pais, que também estão mais interessados que o filho tenha uma carreira promissora do que no conhecimento que ele está adquirindo.
Pensadores, línguas e retórica são coisas das Universidades. Mas quem dera, se elas fossem semelhantes à academia que você, mesmo com todas as suas doenças arrecadou pessoalmente recursos para construir.
Elas (as academias brasileiras) possuem bons mestres, mas ainda é acessível apenas a minoria, e dessa minoria que se encontra lá, a maioria, fruto desse sistema que vem se desenvolvendo está interessada apenas no diploma. A leitura de alguns pensadores é vista como enfadonha e sem utilidade, e ainda há os que se gabam dizendo: “Depois que sai da faculdade, nunca mais li um livro!” comemorando a “estupidez humana e o descaso por educação”,como diz um protesto musical. Temos uma alta tecnologia, muitas informações disponíveis, mas isso pouco é usado de forma relevante, educacionalmente.
A escola brasileira poderia trabalhar melhor esses aspectos pontuados, se houvesse uma proposta clara, prática e objetiva de educação, e que essa proposta estivesse no coração dos nossos governantes. O povo poderia também aproveitar a oportunidade de acesso à informações e construir um pensamento indomado que fosse transformador socialmente. Porém diante do ciclo que vivemos, acho que fica mais fácil para o povo ser domesticado achando que está trilhando por uma educação onde ele próprio “constrói” seu conhecimento; e mais fácil para o estado que engana quando diz que oferece ao povo a oportunidade de adquirir esse conhecimento. No final de tudo, o cidadão educado pelo estado sobe aos palanques e continua o processo.
Vejo poucas alternativas para a escola brasileira hoje, querido. Principalmente, porque a idéia romanceada de que é o professor quem vai mudar essa realidade é muito difundida por aqui, como parte do sistema. Porém sua luta, seu esforço e seu trabalho, refletido na Genebra de hoje, estimula-me muito a influenciar de forma positiva os cidadãos que hoje tenho a oportunidade de educar. Quem sabe, a partir disso, uma reforma não aconteça também para a educação brasileira. 
Grata por sua colaboração educacional, política e religiosa, despeço-me, guardando no coração a profunda admiração que tenho por sua pessoa.
Ivonete Silva, ainda triste por não ter nascido a 497 anos atrás.
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