Ensino Religioso sem ser Religioso

No dia 21, saiu uma matéria no site da UnB – Universidade de Brasília, sobre a pesquisa da professora Débora Diniz, que avaliou cerca de 25 livros de Ensino Religioso e apresentou um estudo com o título: Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil.
Segundo a análise da professora, a maioria dos livros de ER estimula a homofobia, pois trata o homossexualismo como desvio moral, o preconceito, e “catequisa” os alunos na religião cristã.
A professora criticou ainda o fato da “imagem de Jesus aparecer cerca de 80 vezes mais do que a de uma liderança indígena no campo religioso, 12 vezes mais que o líder budista Dalai Lama e ainda conta com um espaço 20 vezes maior que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo (Calvino nem mesmo é citado).”
Por último, Débora Diniz observou ainda a tendência religiosa das editoras dos livros, questionando o modelo de Ensino Religioso no país, afirmando que se a religião tem de ser tratada em sala de aula, deve ser de maneira diversificada, tendo em vista o estado laico.
Sou professora de Ensino Religioso, e lamentei não ter ido ao lançamento da pesquisa da Débora Diniz, pois essa notícia me faz pensar em uma série de coisas. Pontuo aqui algumas delas.
1. A ingenuidade, não sei bem se essa seria a palavra correta, desses pesquisadores em um material de Ensino Religioso “neutro”, ou para usar suas palavras, “diversificado”. Ou seja, um material de Ensino Religioso que não fosse religioso. Isso é impossível. Todo homem é um ser religioso. Quem quer que seja que escreva um livro de Ensino Religioso, ou de qualquer outra coisa, irá colocar ali seus pressupostos, suas influências de leitura, ou seja, sua visão de mundo. Segundo Herman Dooyeweerd, a própria afirmação da automia/neutralidade do pensamento é um dogma. Eu sei que soa bonito, pensar em um livro que fale sobre todas as religiões, um livro neutro, um livro baseado na diversidade. Mas esse é um discurso enganoso, porque o próprio fato de se criar um livro baseado em todas as religiões, é porque se acredita que todos os caminhos levam a Deus, e que todas as religiões são verdadeiras e merecem ser estudadas. Isso já é uma crença. Isso já é religioso.
2. Eu sou a favor de que o Cristianismo seja estudado, pronuncio isso, mesmo sabendo que vou receber pedradas dos antropólogos, sociólogos e afins. E digo isso não com empáfia, ou presunção, digo isso por uma razão simples. Os cristãos, em sua maioria, são honestos, nesse aspecto. Se não existe neutralidade, não ficamos lutando ou afirmando existir essa neutralidade, sendo que no nosso próprio coração há pressupostos. Eu os assumo. E acredito que o Cristianismo deva ser ensinado, estudado e praticado, porque não se trata apenas de uma religião, mas de um sistema de vida que integra toda a realidade, inclusive a realidade escolar.
3. Em uma coisa a Professora Débora Diniz está certa. Acho que o Ensino Religioso brasileiro carece de mudanças. Porém, não acho que a criança deve estudar as mais diferentes religiões na escola. Acho que um currículo de Ensino Religioso deve ensinar a criança e o jovem a glorificar a Deus e a servir ao próximo. Simples assim. Como fazer isso? Ensinando a Bíblia, ela é a revelação do próprio Deus, portanto ela é fonte segura para guiar os passos de quem deseja tal objetivo. Muitos vão afirmar que isso é querer catequisar as pessoas, e sugerem que os livros sejam baseados em valores universais. Só que esses “chamados valores universais” são valores cristãos, capital emprestado do Cristianismo. Já que nada é neutro e algo tem de ser ensinado que seja o Cristianismo, já que não existe outro sistema capaz de ver a vida de maneira integral. Vou ainda mais além, o Cristianismo deve ser ensinado nas escolas não apenas no componente curricular de Ensino Religioso, mas também em todas as disciplinas.
4. Não vou nem entrar a fundo no aspecto da homofobia. Deixo claro que condeno a discriminação não só ao homossexual mas a qualquer pessoa. Porém, afirmo que ser contra o homossexualismo é muito diferente de ser homofóbico. E se existe uma luta pela diversidade, porque não posso expressar minha opinião? Porque tenho de ser a favor do homossexualismo? A neutralidade-diversidade-e-afins é um mito para aqueles que a defendem, pois não podem exercê-la!
5. Muito lindo dizer que o estado brasileiro é laico. Mas até aonde vai essa neutralidade? Se o estado é laico porque tenho de aprender espiritismo nas novelas globais? Por que que ainda alguém não se levantou e fez uma pesquisa mostrando que a maioria das novelas ridicularizam os cristãos (católicos e protestantes) e priorizam a doutrina espírita?
Esses dois últimos pontos, fogem da discussão do livro de ER. Só para pensar.
“O Cristianismo não é uma série de verdades no plural, mas é a Verdade escrita com V maiúsculo. É a verdade sobre a realidade total, não apenas para assuntos religiosos. Ele é a propriedade intelectual dessa Verdade total e então vive segundo essa verdade”
(Francis Schaeffer)
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8 comentários on “Ensino Religioso sem ser Religioso”

  1. Guilherme de Carvalho diz:

    Pois é…

    ensino religioso em contexto “laico” é ensino da laicidade – ou seja, a secularização dos alunos… Mas em nome da “neutralidade”, o Estado controla a situação!

    Acho que o que o Estado devia fazer é oferecer classes optativas conforme a orientação religiosa que os PAIS desejam dar aos filhos, e não aquilo que o governo acha melhor.

    abraço, Ivonete!

    Guilherme

  2. charles diz:

    Tenho de discordar, apesar dessa de ficar catando figurinha em livros ser uma bobagem, ciência da religião é ciência da religião e não ciência de Deus (que é teologia)… porém.. quando a UnB for uma Oxford ou Harvard no que tange à ciência da religião me chame… esse livro tem cara de ser superfraco.. nem cita Calvino.. :/

  3. Você tocou no ponto Guilherme, a educação é de responsabilidade dos pais e não do estado.

  4. Carlos Jr diz:

    Não podemos abrir mão da verdade absoluta. Como Protestante confessional não posso abrir mão das verdades que creio. em uma escola evangélica encontrei um pai que disse que sua filha recebeu uma lição de casa onde se encontrava a seguinte frase: “O batismo de crianças é uma prática do Papa e os evangélicos não acreditam nisso”. Lição dada por uma professora que professa o evangelicasmo, e está afetando diretamente a fé que professamos como Reformados Calvinistas e que é contrária as Escrituras sagradas. Não posso deixar de crer no pedobatismo o que me leva a não querer fazer concessão a fé contrária a Teologia da Aliança. Calvino na conclusão do capítulo sobre batismo infantil nas Institutas da Religião Cristã diz: “Eis aqui por que Satanás se esforça tanto em privar nossas criaturas dos benefícios do batismo; Sua finalidade é que se esquecermos de testificar que o Senhor tem ordenado para confirma-nos as graças que ele que nos conceder, pouco a pouco vamos nos esquecendo das promessas que nos fez a respeito disto. De onde não só nasceria uma ímpia ingratidão para com a misericórdia de Deus, mas também a negligencia de ensinarmos nossos filhos no temor do Senhor, e na disciplina da Lei e no conhecimento do Evangelho. Porque não é pequeno estimulo sabermos que educá-los na verdadeira piedade e obediência a Deus saber que desde seu nascimento foram recebidos no Senhor e em sue povo, fazendo-os membros de sua igreja.” Como capelão da PMDF fui obrigado pela fé que professo a exortar aqueles que pastoreava que cumprissem a Aliança de Deus conforme GN 17; Essa é a fé Calvinista, mas em meio a Batistas, Pentecostais e Neo-pentecostais tive que aguentar outras teologias que não a fé calvinista. O fato de vez em quando ser conduzido a quase realizar cultos com outras religiões, que ofendem o meu Deus com suas práticas estranhas a Lei de Deus. Por vez encontramos então o cenário do Ensino Religioso, o governo tentando criar um vácuo religioso permitindo que o sincretismo e o Pós-modernismo possam assumir o pensamento do povo brasileiro. Uma idéia pluralista que aceita todas as religiões desde que não haja nenhuma verdade absoluta, daí a tentativa da igreja emergente de se etabelecer hoje no atual cenário e conjuntura. Pode de tudo desde que a intenção seja “boa”. Mas possuimos pressupostos que não podemos abandonar por ser a única verdade, a fé cristã ou bíblica. não posso acreditar em um ensino Religioso neutro, por isso o Mackenzie tem defendido o pressuposto confessional Calvinista, (graças a Deus minha filha de 5 anos estuda no Mackenzie) fiz meu curso de Teologia em um seminário Presbiteriano, validação na Universidade Mackenzie e Mestrado no Andrew Jumper, por crer que os pressupostos destas instituições são calvinistas. Precisamos de pessoas que sejam fieis a suas cosmovisões e que estejam dispostas a defender a fé.
    Rev Carlos Jr

  5. Michele diz:

    Eu só acho que os alunos matavam bem menos professores qdo ensino religioso era obrigatorio!!!

  6. Daniel Oliveira diz:

    Isso é tudo que vc tem a dizer, Michele? Ri muito do seu comentário no meio de um assunto tenso… mas é verdade, quando estudava no Adventista eles faziam lavagem cerebral, passando fitas de gente endemoniada, mostrando imagens fortes e aterrorizando a gente com idéias – que hoje – eu sei que são equivocadas a respeito de Deus, céu e inferno.

    E realmente, muita ingenuidade acreditar que possa existir uma educação laica em um Estado “laico”, tão laico que na moeda está escrito “Deus seja louvado”.

    Essa tia viajou.

  7. […] a análise da Ivonete Silva sobre uma pesquisa recentemente publicada pela […]


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