Nem Toda Brasileira é Bunda, Nem Toda Mulher é Salão: Uma Lição

Escrevi esse texto em 2005, na época da minha formatura no curso de teologia. Ele foi publicado no meu antigo blog. Como o aprendizado das lições permanecem, resolvi publicar de novo.

Atrevi-me a escrever mesmo sabendo que posso ser apedrejada pela maioria das mulheres deixando registrado aqui este desabafo, e uma pequena lição.

O dia de ontem foi marcado pela correria característica dos dias de dezembro, culminando com minha formatura às 20h.

Pensei, no início da semana, que já que tinha decidido participar da formatura, que por sinal foi ótima, não podia ir de qualquer jeito, (calça jeans, camiseta, bandana e All Star) mas os dias foram passando e já era sexta-feira quase 10 da manhã eu não tinha visto nenhum detalhe de roupa, penteado e etc.

Algumas pessoas amedrontaram-me dizendo que provavelmente eu não iria encontrar mais vaga em nenhum salão, que eu era doida, que eu tinha que tirado um dia para resolver isso e blá blá. Realmente eu achei que algumas horas fossem suficientes. Afinal de contas eu tava apenas me formando.

Bem, depois de três tentativas encontrei hora em um salão. Cheguei atrasada 30m e comecei a transformação. Sem brincadeira nenhuma cheguei a ficar cerca de duas horas debaixo de um secador. (fora o tempo da escova, penteado e maquiagem). Envolvida pelas músicas (melosas) e pelo titi do ambiente não pude deixar de fazer algumas reflexões, enquanto meus miolos cozinhavam junto com a secagem do cabelo.

A primeira delas veio depois de uma pergunta que fiz a mocinha que gentilmente lixava minhas unhas.

“- Tem gente que vem tooooda semana aqui?”

“- Sim! Tem clientes que já tem um horário fixo semanal reservado”.

“- E elas passam cerca de quatro horas aqui?”

“- Sim! as vezes até mais!”

Fiquei pensando em quanta coisa eu poderia fazer em três ou quatro horas, ou melhor naquelas exatas três horas, além de ouvir falar da atuação da Glória Pires na novela das 8h, ficar nervosa com a menina ao meu lado que ia casar e  ligava de cinco em cinco minutos para conferir os detalhes da cerimônia, ou bater com a cabeça na parede agoniada com a conversa embolada de tantas mulheres juntas que se produziam, e falavam de tantos assuntos diferentes. Pensei até em continuar a leitura de um livro mais não ia dar, porque minhas unhas estavam sendo pintadas. Então eu comecei a pensar em como seria minha vida, se eu tivesse que passar quatro horas toda semana ali, e em um desespero crescente soltei um:

“- Eu detesto salão!”

A noivinha que estava ao meu lado, disse:

“- Nossa se eu pudesse, eu vinha todo sábado e passava o dia! É bom demais! Qual mulher não gosta?”

Tentei lembrar da música da Rita Lee, mas pensei que talvez eu tivesse mesmo algum problema, ou o que restava do meus neurônios haviam sido consumidos pelo calor do secador. Como alguém passaria o dia inteiro naquela tortura? E pior, quem teria o dia inteiro disponível para empregar naquilo tudo, quando poderia fazer milhares de coisas mais interessantes? E ainda, quem teria tanto dinheiro para isso? Nem quis pensar na questão financeira, afinal de contas eu saberia que tudo o que tava sendo feito no meu cabelo e no meu rosto iria durar apenas um noite. Evitei pensar no que eu poderia comprar com esse dinheiro para não entrar em depressão.

Conclui que talvez eu não fosse mulher, ao pensar que eu preferia em um sábado, mil vezes estar em um acampamento  comendo uma comidinha mateira, tomando banho de rio, ou estar em casa, lendo um livro, assistindo um filme, navegando na internet, música, cinema, pizza, casa de amigos, e até mesmo dormir, sei lá uma infinidade de coisas que se pode fazer e que são infinitamente mais prazeirosas do que morar em um salão.

Devo esclarecer que eu gosto de unhas limpas, de cabelo arrumado, corpo depilado, sobrancelha certinha, isso faz parte até da higiene nossa de cada dia, mas acho inconcebível um ser humano sentir prazer em passar o dia inteiro fazendo essas coisas, e procurar compulsivamente mante-se com a cara rebocada em cima de um salto, quando poderia ser prático e tentar fazer as coisas básicas e indispensáveis em poucas horas, e aproveitar a vida!

Depois desconclui pensando que isso não era inconcebível, mas que Deus é muito gracioso e criativo! Como Ele pode ter criado tantas pessoas diferentes!

Para algumas mulheres, e eu diria que pra maioria delas, essa é uma meneira de aproveitar a vida! (pobre de mim ao achar que meus prazeres resumem a forma de aproveitar a vida!) É assim que elas relaxam da correia do trabalho, dos afazeres domésticos, das pressões familiares, e elas se sentem bem em um salão, desfrutando de cada minuto ao cuidarem da sua pele, corpo e cabelo, fazendo daquele momento um eterno prazer.

E apesar de não me enquadrar na categoria das que dão a vida por um dia no salão, não tenho nenhum direito de criticar, ou dizer que são piores ou melhores do que eu apenas porque temos gostos e prazeres diferentes. O que Deus espera de nós é que respeitemos uns aos outros e que até nas nossas diferenças magnifiquemos o seu nome, respeitando o próximo e reconhecendo a sua soberania e glória.

Ai finalmente conclui que sou pó, assim como aquele que a moça passava na minha face, quase finalizando a maquiagem. E quando me olhei no espelho, louvei a Deus por ter me criado, e por ter criado tantas pessoas, e supliquei que ele me ensinasse dia a dia, a respeitar as pessoas, e a amá-las como Cristo amou independente de todas as diferenças, e que através desse amor vidas pudessem se render aos pés dele, pois só assim eu realmente estararia cumprindo a missão que ele me deu.

Ivonete Silva, feliz pelas diferenças e triste por ter jogado R$125,00 ralo abaixo no banho matinal.

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3 comentários on “Nem Toda Brasileira é Bunda, Nem Toda Mulher é Salão: Uma Lição”

  1. Cauê diz:

    Ivonete,

    muito bom esse seu texto, especialmente a transição que tu fizeste entre pensar na “inutilidade” de ficar tantas horas no salão para concluir que as pessoas possuem formas diferentes de buscarem prazer e de relaxarem.
    Deus é magnifico mesmo…
    Muitas vezes enfrentamos caimos nesse erro básico: achar que as nossas coisas, os nossos prazeres e o que nós fazemos tem maior importância (eu mesmo constantemente me insiro nisso).

    “pobre de mim ao achar que meus prazeres resumem a forma de aproveitar a vida!”

    =D

  2. Adorei o texto, Ivonete!
    É bem comum mesmo acharmos inconcebível que outras pessoas tenham opiniões diferentes… rsrs…
    Muito boa a conclusão a que chegou! =]
    Abraço!


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