A Razão Que Não Tem Razão

Reflexões acerca do texto: “Reason Within the Limits of Revelation Alone: John Calvin’s understanding of human reason”, de Barry G. Waugh, publicado no The Westminster Theological Journal Vol.72 No.1

“O Amado ausentou-se do seu amigo e o amigo procurava o seu amado com a sua memória e o seu intelecto para que o pudesse amar. O amigo encontrou seu Amado e perguntou-lhe onde tinha estado. O Amado respondeu:’Na ausência da tua recordação e na ignorância da tua inteligência'”.
(Raimundo Lúlio, no Livro do Amigo e do Amado)

Todo ser humano é dotado da capacidade de raciocionar. Isso é o que o difere de outras criaturas. Raciocinar é um dom, um presente de Deus para todos os homens, acreditem eles Nele, ou não. Uma bondade imerecida dada na criação. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, por isso somos capazes de racionar: elaborar teorias científicas, realizar cálculos matemáticos, codificar a linguagem, pensar acerca  da existência.

João Calvino, teólogo do séc XVII, chamava essa capacidade de raciocínio do homem de razão natural. Essa razão natural, bem como todas as capacidades humanas, foi corrompida pela queda. Com isso, ela é incapaz de conhecer a Deus.  Por causa do pecado, os homens se acham suficientes, eles não precisam de Deus, pois sua capacidade de raciocinar, basta. Quando os homens pensam assim, e buscam conhecer a Deus por meio de sua razão corrompida, eles assumem um caminho totalmente equivocado. Isso gera idolatria nos seus corações. Ao invés de adorar ao Deus Criador e doador da razão, eles adoram qualquer coisa, inclusive e frequentemente o seu próprio eu, ou a sua própria razão. Calvino diz que essa é a razão viciada. Uma razão que não tem razão, uma razão enganada pela sua própria capacidade de raciocinar.

A solução para uma razão que não tem razão, é o reconhecimento de que sua própria razão não é suficiente para conhecer verdadeiramente a Deus. Esse conhecimento só é possível a medida em que o próprio Deus se revela, por meio de sua Palavra, a Bíblia Sagrada. A resposta para a razão viciada, é a razão redimida, uma razão que foi transformada e que compreende o seu estado de depravação e reconhece a Deus como perfeito, único e verdadeiro. A mente redimida tem uma visão bíblica tanto de Deus quanto do homem e assim o possibilita a amá-lo com piedade e devoção.

O ponto último de toda a existencia humana é Deus. Talvez você pense: “mas eu nem mesmo acredito em Deus!” tal frase, confirma o que eu afirmei. O homem está sempre se relacionando com Deus, ou virando as costas para ele e ignorando a sua existencia, ou amando-o com todo o seu coração. Deus nos deu a capacidade de raciocinar para que com ela fossémos capazes de glorificar o seu nome e reconhecer sua bondade e favor imerecido.

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